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Fátima – Parte 2: Nossa Senhora aparece aos pastorinhos

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Os povos envolvidos em guerra (1ª guerra mundial 1914-1918) espalhavam a morte, medo e a dor. Portugal atravessava uma grave crise, almas desorientadas envolviam-se na descrença, corações com fé suplicavam paz e a salvação para o mundo. Foi nesta atmosfera humana que brilhou o belo e risonho dia 13 de Maio de 1917. Neste dia as três crianças apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria, freguesia de Fátima, conselho de Vila Nova de Ourém, hoje diocese de Leiria-Fátima. Chamavam-se Lúcia de Jesus, já com 10 anos, e Francisco e Jacinta Marto, seus primos, de 09 e 07 anos.

Por volta do meio dia, depois de rezarem o terço, como habitualmente faziam, entretinham-se a construir uma pequena casa de pedras soltas, no local onde hoje se encontra a Basílica. De repente, viram uma luz brilhante; julgando ser um relâmpago, decidiram ir embora, mas, logo abaixo, outro clarão iluminou o espaço, e viram em cima de uma pequena azinheira (onde agora se encontra a Capelinha das Aparições), uma ‘Senhora mais brilhante que o sol’, de cujas mãos pendia um terço branco.

A Senhora disse aos três pastorinhos que era necessário rezar muito e convidou-os a voltarem à Cova da Iria durante mais cinco meses consecutivos, no dia 13 e àquela hora. As crianças assim fizeram, e nos dias 13 de Junho, Julho, Setembro e Outubro, a Senhora voltou a aparecer-lhes e a falar-lhes, na Cova da Iria. A 19 de Agosto, a aparição deu-se no sítio dos Valinhos, a uns 500 metros do lugar de Aljustrel, porque, no dia 13, as crianças tinham sido levadas pelo Administrador do Conselho, para Vila Nova de Ourém.

Na última aparição, a 13 de Outubro, estando presentes cerca de 70.000 pessoas, a Senhora disse-lhes que era a ‘Senhora do Rosário’ e que fizessem ali uma capela em Sua honra.

Depois da aparição, todos os presentes observaram o milagre prometido às três crianças em Julho e Setembro: o sol, assemelhando-se a um disco de prata, podia fitar-se sem dificuldade e girava sobre si mesmo como uma roda de fogo, parecendo precipitar-se na terra.

Posteriormente, Nossa Senhora apareceu só a Lúcia uma 7ª vez em 15 de Junho de 1921 na cova da Iria como ela mesma conta em seu diário, indicando o caminho que Lúcia deveria seguir.

Após, sendo Lúcia já religiosa de Santa Doroteia, Nossa Senhora apareceu-lhe novamente na Espanha (10 de Dezembro de 1925 e 15 de Fevereiro de 1926, no Convento de Pontevedra, e na noite de 13/14 de Junho de 1929, no Convento de Tuy), pedindo a devoção dos cinco primeiros sábados (rezar o terço, meditar nos mistérios do Rosário, confessar-se e receber a Sagrada Comunhão, em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria) e a Consagração da Rússia ao mesmo Imaculado Coração. Este pedido já Nossa Senhora o anunciara em 13 de Julho de 1917, na parte já revelada do chamado ‘Segredo de Fátima’. 

Os pastorinhos no local da Aparição.Os pastorinhos no local da Aparição.

1ª APARIÇÃO – 13 de Maio de 1917

Lúcia descreve com exatidão o primeiro encontro com a Virgem da carrasqueira:

Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco, no cimo da encosta da Cova da Iria a fazer uma paredezita em volta de uma moita, vimos de repente como que um relâmpago.

– É melhor irmos embora para casa. Disse a meus primos:

– Estão a fazer relâmpagos e pode vir trovoada.

E começamos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direção à estrada. Ao chegar mais ou menos a meio da encosta quase junto de uma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e dado alguns passos mais adiante vimos sobre uma carrasqueira uma Senhora vestida toda de branco mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de água cristalina atravessado pelos raios do sol mais ardente. ‘Tão linda no rosto como não tinha visto senhora nenhuma’, dirá Lúcia, mais tarde, ao seu pároco.

Paramos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto que ficávamos dentro da luz que a cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio, mais ou menos.

Então Nossa Senhora disse-nos:

– Não tenhais medo, Eu não vos faço mal.

– De onde é Vossemecê? Lhe perguntei.

Sou do Céu!

– E que é que Vossemecê me quer?

Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 e a esta mesma hora, depois vos direi quem sou e o que quero.

– E eu também vou para o Céu?

Sim, vais!

– E a Jacinta?

Também.

– E o Francisco?

Também, mas tem que rezar muitos terços... Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?

– Sim queremos!

– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Foi ao pronunciar estas palavras (a graça de Deus, etc...) que abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como que reflexo que delas expedia, que penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazia-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz; mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então por um impulso íntimo, também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente: ‘Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro, Meu Deus, Meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento.’

Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:

– Rezem o terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

Em seguida começou a elevar-se serenamente, subindo em direção ao nascente até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros, motivo porque algumas vezes dissemos que vimos abrir-se o Céu. Nesse mesmo dia e hora, em Roma, era sagrado Bispo, por Bento XVI, Eugênio Pacelli, o futuro Papa Pio XII.

Jacinta Marto.Jacinta Marto.

Tão impressionadas ficaram com a aparição, que as crianças combinam não contar a ninguém o que tinham visto e ouvido. Mas, chegadas à aldeia, os sete anos de Jacinta não resistem e, correndo para a mãe, exclama:

- Vi hoje Nossa Senhora na Cova da Iria!

E contou-lhe quanto vira e ouvira. A senhora Olímpia não tomou a sério a revelação da filha, embora confirmada pelo Francisco, e a notícia, em ar de brincadeira, não demorou a correr por toda a aldeia. A mãe de Lúcia, porém, não suportou que se brincasse, como supunha, com assunto tão sério e, indignada com o que pensava ser mentira das crianças, quis obrigar, em vão, sua filha a desdizer-se, ameaçando-a e batendo-lhe. Começava assim o longo calvário dos três pastores. O povo ria-se deles, os pais e irmãos ralhavam-lhes e batiam-lhes, só o pai de Jacinta e de Francisco se recusava a acreditar que tudo fosse invenção.

 

2ª APARIÇÃO – 13 de Junho de 1917

A 13 de junho, meia centena de pessoas decide acompanhar as crianças. Nada viram, mas os pastorinhos de novo receberam a visita de Nossa Senhora.

Lúcia narra:

‘Aí pelas 11 horas saí de casa, passei por casa de meus tios onde a Jacinta e o Francisco me esperavam e lá vamos para a Cova da Iria à espera do momento desejado... Depois de rezar o terço com a Jacinta e Francisco e mais pessoas que estavam presentes (Conforme contou o Sr. Inácio António Marques, assistiram 40 pessoas!), vimos de novo o reflexo da luz que se aproximava (a que chamávamos relâmpago) e em seguida Nossa Senhora sobre a carrasqueira, em tudo igual a Maio.

– Vossemecê que me quer? Perguntei.

– Quero que venhais aqui no dia 13 do mês que vem, que rezeis o terço todos os dias e que aprendam a ler. Depois direi o que quero.

– Pedi a cura de um doente.

– Se, se converter, curar-se-á durante o ano.

– Queria pedir-lhe para nos levar para o Céu.

– Sim, a Jacinta e o Francisco levo-os em breve, mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-Se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração. A quem a aceita, prometer-lhe-ei a salvação e estas almas serão amadas de Deus, como flores colocadas por Mim para enfeitar o Seu Trono.

– Fico cá sozinha? Perguntei com pena.

– Não, filha! E tu sofres muito! Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O Meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus.

Foi no momento em que disse estas palavras, que abriu as mãos e nos comunicou, pela segunda vez, o reflexo dessa luz imensa. Nela nos víamos como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco pareciam estar na parte dessa luz que se elevava para o Céu, e eu, na que se espargia sobre a terra. À frente da palma da mão direita de Nossa Senhora estava um Coração cercado de espinhos que parecia estarem-Lhe cravados. Compreendemos que era o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade que queria reparação.

Eis ao que nos referíamos quando dizíamos que Nossa Senhora nos tinha revelado um segredo em Junho. Nossa Senhora não nos mandou ainda desta vez guardar segredo, mas sentíamos que Deus a isso nos movia.'

As pobres crianças regressaram da Cova da Iria para enfrentar novas provações. Lúcia é a mais mortificada pela mãe e pelas irmãs. É submetida a um primeiro interrogatório pelo pároco de Fátima, a que respondeu o menos possível. Começa depois a deixar-se vencer pelo desânimo e quase desiste de comparecer ao encontro de 13 de julho. São os primos que a animam, e vai. 

 

3ª APARIÇÃO – 13 de Julho de 1917

Nesse dia, mais de 2000 pessoas acompanham os videntes. E seria nessa terceira aparição que a Virgem Santa lhes comunicaria o SEGREDO.

Escreve a Irmã Lúcia:

'Momentos depois de termos chegado à Cova da Iria, junto da carrasqueira, entre numerosa multidão de povo, estando a rezar o terço, vimos o reflexo da costumada luz e em seguida Nossa Senhora sobre a carrasqueira.

– Vossemecê que me quer? Perguntei.

– Quero que venham aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem o rezar o terço todos os dias, em honra de Nossa Senhora do Rosário para obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só ela Lhes poderá valer.

– Queria pedir-Lhe para nos dizer quem é, para fazer um milagre com que todos acreditem que Vossemecê nos aparece.

– Continuem a vir aqui todos os meses, em outubro direi quem sou, o que quero, e farei um milagre que todos hão de ver para acreditar.

Aqui fiz alguns pedidos, que não recordo bem quais foram. O que me lembro é que Nossa Senhora disse que era preciso rezar o terço para alcançar as graças durante o ano. E continuou:

– Sacrificai-vos pelos pecadores, e dizei muitas vezes, em especial sempre que fizerdes algum sacrifício:  ‘O Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria.’

        (Aqui ocorre a comunicação do Segredo.)

 

Continuando:

– Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco sim, podeis dizê-lo. Quando rezardes o terço, dizei depois de cada mistério: Ó meu Jesus, perdoai-nos livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o céu, principalmente aquelas que mais precisarem.

Seguiu-se um instante de silêncio e perguntei:

– Vossemecê não me quer mais nada?

– Não, hoje não te quero mais nada.

E como de costume começou a elevar-se em direção ao nascente até desaparecer na imensa distância do firmamento.’

Lúcia, Francisco e Jacinta.Lúcia, Francisco e Jacinta.

 

A notícia de que a Virgem confiara às três crianças um segredo que elas por nada revelavam avolumou o interesse do povo pelos acontecimentos e chamou a atenção das autoridades eclesiásticas e civis. O pároco de Fátima, Pe. Marques Ferreira, que já uma vez conversara com Lúcia sobre os acontecimentos, volta a interroga-la, prudentemente, acabando por afirmar: ‘Não sei o que dizer nem o que fazer a tudo isto.’ O administrador do concelho de Vila Nova de Ourém, o latoeiro Artur de Oliveira Santos, mação, livre-pensador e irredutivelmente anti-clerical, que no registro civil pusera as filhas os nomes de Democracia e República, intervém, por seu turno, convocando as crianças e os pais para a administração, a fim de serem interrogados. O pai dos dois mais novos recusa-se a levar os filhos, mas Lúcia vai. O interrogatório é duro, mas ela nada revela, mesmo sob ameaça de morte.

O ‘Ti’ Marto, pai de Jacinta e do Francisco, foi, das pessoas mais chegadas às crianças, quem menos as fez sofrer. É ele quem, logo após a primeira Aparição, interroga calmamente os que discutiam o acontecimento: ‘Se os cachopos viram uma mulher vestida de branco, quem poderia ser senão Nossa Senhora?’. Os restantes, parentes, amigos ou vizinhos, mesmo quando as não hostilizavam (e, nesse campo, a mãe de Lúcia foi a mais adversa), torturavam-nas com perguntas sobre perguntas, procurando por todos os meios arrancar-lhes o segredo. Um dos primeiros testemunhos de estranhos, de simpatia e carinho para com os videntes, deve-se ao Dr. Carlos de Azevedo Mendes, que em 7 de setembro os visitou e os descreveu depois em carta à sua noiva. A sua vida iria ficar para sempre ligada a Fátima. Poucas semanas mais tarde, outro inquiridor, imparcial mas compassivo, o Ver. Dr. Manuel Nunes Formigão, registraria, sob o pseudônimo de Visconde de Montelo, as primeiras declarações pormenorizadas das crianças que interessam para a História.   

 

4ª APARIÇÃO – 19 de Agosto de 1917

No dia 13 de agosto, uma multidão de 15 a 18 mil pessoas comprimia-se na Cova da Iria. A ação da imprensa anticlerical, que multiplicara, nas semanas anteriores, os seus ataques, contribuíra, afinal, para a divulgação dos acontecimentos por todo o País. Mas o administrador do conselho, em nome do Livre-Pensamento, é que não podia permitir que a ‘comédia’ continuasse... Vai a Fátima de manhã cedo, tenta uma vez mais demover as crianças, fá-las interrogar de novo, pelo pároco e, finalmente, convence-as a subir em seu carro, a pretexto de que ele mesmo as iria levar à Cova da Iria, e rapta-as. O Destino era a administração do concelho e a cadeia de Vila Nova de Ourém. Afirmava-lhes que não voltariam para suas casas enquanto não fizessem o que se lhes mandava. No dia seguinte, o administrador decidiu seguir outro caminho e ofereceu àquelas crianças vários objetos de ouro, um relógio, duas ou três correntes e algumas moedas que fazia tilintar sobre a escrivaninha, em troca da almejada confissão. Nem perante ‘aquela riqueza’; nem por bem nem por mal, que à tentativa de suborno se seguiram de novo as ameaças. Depois de um segundo e igualmente ineficaz interrogatório, são levadas para a cadeia pública com a promessa de mais tarde as irem buscar para as queimarem vivas. Os presos tinham compaixão delas. Procuraram distraí-las, especialmente à Jacinta, que chorava, pois queria voltar a ver os pais antes de morrer. Dançam com elas ao colo; por fim, a pedido das crianças, ajoelham todos e rezam com elas. Passado algum tempo, vêm buscá-las. O ‘latoeiro’ faz mais uma tentativa, sem êxito, grita que preparem o azeite a ferver para as queimar, e fecha as crianças numa sala. Volta pouco depois, para buscar Jacinta: ‘Diz o segredo ou serás a primeira a morrer queimada!’ Leva-a e volta em seguida para levar Francisco: ‘Aquela já está frita; agora tu, diz o segredo!’ E a criança parte, preparada para o martírio. Depois Lúcia, a mesma cena, e por fim o encontro dos três, a alegria pelo encontro inesperado, a certeza de que nenhum dissera o que a Senhora mandara calar e, finalmente, a liberdade, na manhã do dia 15.

Os videntes faltaram ao encontro do dia 13. A Aparição se deu no domingo, em 19 de Agosto de 1917 ao cair da tarde, desta vez nos Valinhos.

'Andando com as ovelhas na companhia de Francisco e seu irmão João, num lugar chamado Valinhos e sentindo que alguma coisa de sobrenatural se aproximava e nos envolvia, suspeitando que Nossa Senhora nos viesse a aparecer e tendo pena que a Jacinta ficasse sem A ver, pedimos a seu irmão João que a fosse chamar. Como ele não queria ir, ofereci-lhe para isso dois vinténs e lá foi a correr.

Entretanto, vi com o Francisco, o reflexo da luz a que chamávamos relâmpago; e chegada a Jacinta, vimos Nossa Senhora sobre uma carrasqueira.

 - Que é que Vossemecê me quer?

- Quero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13, que continueis a rezar o terço todos os dias. No último mês farei o milagre para que todos acreditem.

- Que é que Vossemecê quer que se faça ao dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?

- Façam dois andores: um, leva-lo tu com a Jacinta e mais duas meninas vestidas de branco; o outro que o leve o Francisco com mais três meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário e o que sobrar é para a ajuda duma capela que hão de mandar fazer.

- Queria pedir-lhe a cura de alguns doentes.

- Sim, alguns curarei durante o ano.

E tomando um aspecto mais triste:

- Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas.

E como de costume, começou a elevar-se em direção ao nascente.'

A Aparição nos Valinhos foi para o Francisco de dobrada alegria. Sentia-se torturado pelo receio de que Ela não voltasse. Depois dizia:

- De certo não nos apareceu no dia 13 para não ir a casa do Sr. Administrador, talvez por ele ser tão mau. Em seguida, como a irmã disse que queria ficar ali o resto da tarde:

- Não! Tu tens que ir embora, porque a mãe hoje não te deixou vir com as ovelhas. E para animar, foi acompanhá-la à casa.

O tempo todo as três crianças dedicavam à oração e a imaginar que mortificações poderiam praticar pela conversão dos pecadores. No mês de agosto, de maior seca, chegaram a ficar nove dias sem beber água. Em lugar de comer as frutas doces que os pais lhes davam, comiam ervas do campo e pinhas verdes. Tendo encontrado uma corda áspera no caminho para Aljustrel, os três a repartiram para usar na cintura como um silício, dia e noite.

Eram claros os sinais de que essas penitências agradavam a Deus. Particularmente, Jacinta agora era mais paciente, carinhosa, e aberta aos sofrimentos. Teve muitas visões sobre coisas futuras. Certo dia rezou três Ave-Marias por uma mulher muito doente, e todos os sintomas da doença desapareceram. Por outra mulher, que os injuriava chamando-as de impostoras e mentirosas, Jacinta pediu que os três fizessem muitas penitências para que se convertesse; e de fato, nunca mais a ouviram dizer uma palavra menos bondosa.

 

5ª APARIÇÃO – 13 de Setembro de 1917

Dia 13 de Setembro de 1917. Nesse dia, a grande multidão afirma ter visto sinais extraordinários no céu, coincidindo com o momento da Aparição. Escreveu uma testemunha ocular: ‘Ao meio-dia em ponto o sol começou a perder o brilho... A atmosfera tomou uma cor amarelada... Não houve quem não notasse o fato, que desde maio precedente se repetia sempre no dia 13 de cada mês à mesma hora’ (citada em Nossa Senhora de Fátima, por Luís Gonzaga da Fonseca, S. J.)

Lúcia descreve o diálogo:

- Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas, a cura de alguns doentes, dum surdo-mudo.

- Sim, alguns curarei; outros não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados.

E tomando um aspecto triste:

- Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido. Em outubro farei o milagre para que todos acreditem.

E começando a elevar-se, desapareceu como de costume.

  

6ª APARIÇÃO - 13 de Outubro de 1917 - O MILAGRE DO SOL

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A publicidade à volta dos acontecimentos aumentava diariamente, graças sem dúvida ao número cada vez maior de pessoas que já tinham estado na Cova da Iria, mas também, e muito, devido à campanha desenvolvida pela imprensa anticlerical. As três crianças eram quotidianamente assediadas com perguntas e interrogatórios, mais ou menos formais. O povo das cercanias andava exaltado, na expectativa do prometido milagre, e não faltava, de novo, quem ameaçasse as crianças com a morte se nada acontecesse no dia 13 de outubro. No dia 12 de outubro, a mãe de Lúcia propõe à filha que se vão confessar, pois que, se teriam de morrer no dia seguinte, deveriam estar preparadas. A filha procura sossegá-la, reafirmando-lhe a certeza de que a Senhora faria o que prometera. E no dia seguinte, pelas onze horas e meia, mais de 70000 pessoas, sob uma chuva persistente, molhadas até aos ossos, em poças de água com cerca de 10cm de profundidade num autêntico lamaçal, aguentando até o frio, aguardavam durante 4 horas na Cova da Iria que o poder do Céu se manifestasse. Nem a lamaceira dos caminhos impedia essa gente de se ajoelhar na atitude mais humilde e suplicante.

Lúcia descreve:

Ao aproximar-se a hora, lá fui com a Jacinta e o Francisco, entre numerosas pessoas que a muito custo nos deixavam andar... Tinha-se espalhado o boato que as autoridades haviam decidido fazer explodir uma bomba junto de nós, no momento da aparição. Não concebi, com isso, medo algum, e falando a meus primos, dissemos:

- Mas que bom, se nos for concebida a graça de subir dali com Nossa Senhora para o Céu!

No entanto meus pais assustaram-se e pela primeira vez quiseram acompanhar-me, dizendo:

 

n/d - Se a minha filha vai morrer, eu quero morrer a seu lado.

Meu pai levou-me então pela mão até o local das aparições, mas desde o momento da aparição não o voltei mais a ver até que me encontrei à noite no seio da família.

Chegados à Cova da Iria junto da carrasqueira, levada por um movimento interior, pedi ao povo que fechasse os guarda-chuvas para rezarmos o terço. Pouco depois vimos o reflexo da luz e em seguida Nossa Senhora sobre a carrasqueira.

Ao meio-dia exato, Lúcia exclama:

- Lá vem Ela!

- Que é que Vossemecê me quer?

- Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra. Sou a Senhora do Rosário. Continuem a rezar o terço todos os dias, para alcançarem o fim da guerra. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas. Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido. Em Outubro virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo, São José com o Menino Jesus para abençoarem o mundo. Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda. Trazei-a só durante o dia. Que os homens se arrependam dos seus pecados, que mudem de vida e se tornem bons.

Despedindo-se, a Senhora abriu as mãos, como das outras vezes, e o brilho que delas saía subia até onde devia estar o sol. A multidão viu as nuvens se abrirem e o sol aparecer entre elas, no azul do céu, como um disco luminoso.

 Foi ao ver isto que exclamei: - Olhem para o sol!

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Chegara o grande momento do milagre! Porém, ela estava em êxtase e não se recorda de ter dito isso, pois estava totalmente absorta em outras visões que se sucederam... 

 O Dr. Almeida Garrett narra o que presenciou nas seguintes palavras: ‘O Sol momentos antes tinha rompido ovante a densa camada de nuvens (...) Pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva, luminosa e reluzente, mas se magoar.(...) Também não se confundia com o sol encarado através do nevoeiro (...) Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fitar o astro (...) sem uma dor nos olhos (...) Este fenômeno (...) devia ter durado cerca de dez minutos. (...) Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. (...) Girava sobre si numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se (...) um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e, sanguíneo, avança sobre a terra (...). São segundos de impressão terrífica...’ 

Enquanto a multidão assistia ao prodígio, entre jubilosa e aterrada, as três crianças eram dadas ainda as visões da Sagrada Família, de Cristo abençoando o povo e de novo a da Virgem.

Sobre o milagre do sol, escreveu o Bispo de Leiria, mais tarde, em Carta Pastoral, estas palavras serenas e definitivas: ‘Este fenômeno que nenhum observatório astronômico registrou e, portanto, não foi natural, presenciaram-nos pessoas de todas as categorias e classes sociais, crentes e descrentes, jornalistas dos principais diários portugueses e até indivíduos a quilômetros de distância, o que destrói toda a explicação de ilusão coletiva.’

Conta Lúcia:

‘Desaparecida Nossa Senhora na imensidade do firmamento, vimos ao lado do sol São José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco com um manto azul. São José com o Menino pareciam abençoar o mundo, pois faziam com as mãos uns gestos em forma de cruz.’

E somente Lúcia teve a visão seguinte: ‘Pouco depois, desvanecida essa aparição, vi Nosso Senhor e Nossa Senhora que me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor parecia abençoar o mundo da mesma forma que São José. Desvaneceu-se esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora em forma semelhante a Nossa Senhora do Carmo’.

Enquanto isso, a multidão presenciava o milagre prometido por Nossa Senhora:  O sol rompia as nuvens e, bem no zênite, na posição de meio-dia, brilhava como um disco de prata. Era possível realmente olhar para ele, sem que sua luz ofuscasse. Isso foi por um instante. Todos ainda olhavam para o sol, assombrados, quando ele começou a ‘dançar’, segundo a descrição das pessoas: ele começou a girar sobre si mesmo, como uma bola de fogo, e então parou. Logo voltou a girar, mas velozmente. Ainda girando, suas bordas ficaram escarlates e começaram a lançar chamas por todo o céu, e com isso sua luz se refletia em tudo e em todos, com as diferentes cores do espectro solar. Ainda girando rapidamente, e espargindo chamas coloridas, por três vezes o sol pareceu desprender-se do céu e precipitar-se em zigue-zague sobre a multidão. Muitos julgavam ser o fim do mundo, e as pessoas se ajoelhavam na lama pedindo perdão de seus pecados. Houve quem fizesse confissão pública em altos brados, e alguns dos que haviam ido até a Cova para fazer troça dos crédulos prostraram-se em terra entre soluços e orações desajeitadas. O fenômeno durou por uns dez minutos, e depois, elevando-se em zigue-zague, o sol voltou a sua posição normal e brilhante, ofuscando como o sol comum.

As pessoas se entreolhavam e diziam: ‘Milagre! Milagre! As crianças tinham razão! Nossa Senhora fez o milagre! Bendito seja Deus! Bendita seja Nossa Senhora!’ Muitos riam, outros choravam de alegria, e houve quem notasse que suas roupas se haviam secado subitamente.

Durante mais de quatro horas chovera torrencialmente e fizera muito frio. E então, exatamente como fora profetizado 92 dias antes, exatamente à hora indicada, parou a chuva e ficou imediatamente bom tempo. Apareceu um maravilhoso arco-íris, promissor de felicidade. A natureza utilizou aqui este jogo de luz, embora contra as regras, pois um arco-íris normalmente pode ser visto de manhã ou à tardinha, não ao meio-dia. Mas o arco-íris apareceu sobre Fátima ao meio-dia, as suas cores brilharam com uma intensidade cem vezes superior à normal, formando em vez de um arco abobado, uma grande faixa com 12 metros de altura que cobriu homens, muros e árvores. Depois deste jogo de cores, o poderoso calor crescente empurrou o tempo chuvoso para o céu. A água evaporou-se rapidamente, e surgiu um grande calor. Mas isso não incomodou ninguém.

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Os nossos físicos não conhecem processos tão rápidos de secagem, pois a quantidade da água evaporada não pode subir em poucos minutos para a atmosfera. Quando terminou o triplo jogo de luz, tudo estava completamente seco. Vários milhares de toneladas de água deviam ter-se evaporado em menos de 3 minutos. Certamente o ar, o quarto elemento, causaria os maiores problemas para os operadores de televisão. Enquanto eles poderiam mais ou menos filmar os efeitos dos elementos acima descritos, não teriam capacidade de captar a coluna do ar.

As muitas nuvens e altitudes que diferiam de algumas centenas a vários milhares de metros, foram movidas, e de tal maneira sobrepostas que o sol verdadeiro perdeu o brilho e nenhuma das 70.000 pessoas sofreu danos na retina ocular. Desse modo as diferentes aberturas entre nuvens foram dirigidas com precisão sensacional.

No meio da multidão estiveram os três pastorinhos que, durante o bailar do sol, se encontraram com a Senhora de dignidade real. Se tivéssemos estado naquele dia em Fátima, mesmo só como observadores, teríamos regressado a nossas casas com um entusiasmo de inexplicável felicidade. O nosso pensamento teria sido: Que maravilha é o nosso planeta! A água pantanosa e a lama fria transformaram-se em suave beleza estival! O disco, que se confundiu com o sol, bailou nas alturas e desceu em frente da multidão, numa proximidade palpável, sem contudo ameaçar!      

Testemunhou-o também o jornalista Avelino de Almeida, que fora enviado pelo diário ‘O Século’, para relatar o acontecimento desse dia 13 de Outubro de 1917, na Cova da Iria. Com os seus próprios olhos viu as coisas espantosas e nesse jornal diário, em 15 de Outubro, Sob o título: ‘Como o sol bailou ao meio dia em Fátima’, descreveu: ‘E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa, mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora pronunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro rei – disco de prata fosca – em pleno zênite aparecer e começar dançando num bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfície solar... Milagre, como gritava o povo; fenômeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de afirmar o que vi... O resto é com a ciência e com a Igreja.’

 

7ª Aparição – 15 de Junho de 1921

Na 1ª aparição de Nossa Senhora em 13 de Maio de 1917, Ela disse: 'Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia e a esta mesma hora, depois vos direi quem Sou e o que quero. Depois voltarei aqui ainda uma sétima vez.'

Em 1920, a Diocese de Leiria foi restaurada, e o Bispo diocesano D. José Alves Correia da Silva logo quis informar-se dos acontecimentos de Fátima e do paradeiro da Lúcia, única sobrevivente dos pastorinhos.  Ao saber que, nessa ocasião, ela se encontrava em Fátima, pediu a uma senhora da sua confiança o favor de ir ver se, com a licença da mãe, a levava a Leiria. Assim, Lúcia encontrou-se pela primeira vez com D. José que a interrogou sobre as aparições, ao que ela respondeu o melhor que pode e soube. Depois, propôs-lhe deixar Fátima para ir para o Porto, porque por lá ainda não era conhecida. Não falaria a ninguém das aparições de Fátima, nem de seus pais, nem da sua família, nem revelaria o seu verdadeiro nome, nem a sua terra natal; não receberia visitas, a não ser das senhoras a quem a ai entregar, para cuidarem dela; não devia escrever a ninguém, a não ser a sua mãe, devia mandar as suas cartas ao Vigário do Olival, que se encarregaria de entregá-las à mãe, e que esta, as cartas que lhe escrevesse devia, igualmente, enviá-las ao Vigário do Olival para, por meio de Sua Reverendíssima, lhes serem enviadas; que não voltaria a Fátima para passar férias nem para qualquer outra coisa, sem a sua licença.

Sabemos hoje, do diário da Irmã Lúcia:

'De novo em Fátima, guardei inviolável o meu segredo, mas a alegria que senti, ao me despedir do Senhor Bispo, durou pouco tempo. Lembrava-me dos meus familiares, da casa paterna, da Cova da Iria, Cabeço, Valinhos, do poço... e agora deixar tudo, assim, de uma vez para sempre? Para ir não sei bem para onde...? Disse ao Sr. Bispo que sim, mas agora vou dizer-lhe que me arrependi e que para aí não quero ir.    

E como que em oração dirigida à Mãe do Céu, continua:

'Assim foste Tu, a que me tomaste pela mão e me conduziste os passos. Sim, mais de uma vez, vieste à terra para indicar-me o caminho, sem Ti, teria perdido o norte e desviado o caminho estreito. Foi o dia 15 de Junho de 1921, viste a minha luta, a indecisão e o arrependimento do sim que antes tinha dado, a incerteza do que iria encontrar, a resolução de voltar atrás. O conhecimento do que deixava, e a saudade a desgarrar-me o coração! Esse Adeus a tudo, no desabrochar da juventude onde um belo futuro me sorria na casa da minha querida Senhora D. Assunção Avelar e outras que me ofereciam, o carinho maternal com igual afeto, deixar tudo e a casa paterna, por uma incerteza do que iria encontrar, oprimia-me o coração e fazia-me pressentir o que nem queria pensar!...

Podia lá ser? Perguntava a mim mesma. - Não, - digo a minha Mãe que não quero ir e com não aparecer amanhã em Leiria tudo está resolvido, volto depois para Lisboa, para Santarém para casa da minha querida Sr. D. Adelaide, ou para Leiria para as Senhoras Patrício, em qualquer dos sítios estou muito melhor, posso estudar e conseguir um bom futuro. Para onde o Sr. Bispo me quer levar, não sei como será, é com a condição de não voltar mais a casa, por isso não voltarei mais a ver a família, nem estes lugares benditos! Cova de Iria, Loca do Cabeço, Valinhos, Poço do Arneiro, a Igreja onde fica o meu Jesus escondido e onde tantas graças tenho recebido! O sorriso da minha primeira Comunhão! Vila Nova de Ourém onde fica a Jacinta, o cemitério onde ficam os restos mortais de meu querido Pai e Francisco! Nunca mais voltar a pisar esta terra abençoada, para ir sabe Deus para onde! Sem nem sequer poder escrever diretamente à minha mãe! Impossível, não vou! E foi entre esta multidão de pensamentos sombrios que percorri o caminho desde a Igreja de Fátima, onde de manhãzinha cedo foi para assistir à Santa Missa e comungar por despedida, até a Cova de Iria.

Aí ajoelhada e debruçada sobre a pequena grade que resguardava a terra que tinha alimentado a feliz carrasqueira onde Nossa Senhora pousou os Seus Imaculados pés, deixei as lágrimas correrem em abundância enquanto que pedia a Nossa Senhora perdão de não ser capaz de oferecer-Lhe desta vez, este sacrifício que me parecia superior às minhas forças. Recordava sim, esse mais belo dia 13 de Maio de 1917, em que tinha dado o meu ‘Sim’ prometendo aceitar todos os sacrifícios que Deus quisesse enviar-me. E esta recordação era como que uma luz no fundo da alma, um escrúpulo que me não dava paz, e me fazia verter uma torrente de lágrimas.

Nesse momento, bem longe estava eu de pensar num novo encontro, nem no cumprimento da promessa: ‘Voltarei aqui, uma sétima vez’. Tinha tantos mais dignos do que eu a quem podias manifestar-Te!  Mas não é aos filhos mais pequeninos e necessitados que as mães socorrem em primeiro lugar? Por certo que, desde o Céu, o Teu maternal olhar me seguia os passos e no espelho Imenso da Luz que é Deus, viste a luta daquela a quem prometeste especial proteção. ‘Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus.’

Assim solícita, mais uma vez desceste à terra, e foi então que senti a tua mão amiga e maternal tocar-me no ombro; levantei o olhar e vi-Te, eras Tu, a Mãe Bendita a dar-me a Mão e a indicar-me o caminho; os Teus lábios descerraram-se e o doce timbre da tua voz restituiu a luz e a paz à minha alma.

Disse Nossa Senhora:

 - ‘Aqui estou pela sétima vez, vai, segue o caminho por onde o Senhor Bispo te quiser levar, essa é a vontade de Deus.’

Repeti então o meu ‘Sim’, agora bem mais consciente do que o dia 13 de Maio de 1917 e enquanto que de novo Te elevavas ao Céu, como num relance, passou-me pelo espírito toda a série de maravilhas que naquele mesmo lugar, havia apenas 4 anos, ali me tinha sido dado contemplar. Recordei a minha querida Nossa Senhora do Carmo e nesse momento senti a graça da vocação à vida religiosa e o atrativo pelo Claustro do Carmelo. Tomei por protetora a minha querida Sóror Teresinha do Menino Jesus. Dias depois, por conselho do Sr. Bispo, tomei por norma a ‘Obediência’  e por lema as palavras de Nossa Senhora narradas no Evangelho – ‘Fazei tudo o que Ele vos disser’.

 

8ª Aparição – 10 de Dezembro de 1925 – à Irmã Lucia na Espanha

Dia 10-12-1925, apareceu-lhes a SS. Virgem e ao lado, suspenso em uma nuvem luminosa, um Menino. A SS. Virgem, pondo-lhe no ombro a mão e mostrando, ao mesmo tempo, um coração que tinha na outra mão, cercado de espinhos. Ao mesmo tempo, disse o Menino:

- Tem pena do Coração de tua SS. Mãe que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos lhe cravam sem haver quem faça um ato de reparação para os tirar.

E em seguida a SS. Virgem disse:

- Olha, minha filha, o Meu coração cercado de espinhos que os homens ingratos me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de me consolar e diz que todos aqueles que durante cinco meses, ao 1º sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e me fizerem 15 minutos de companhia, meditando nos 15 mistérios do Rosário, com o fim de Me desagravar, eu prometo assistir-lhes, na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.

Em 15 de Fevereiro de 1926 - Neste dia encontrava-se Lúcia no pátio que dá para a rua da mesma Casa das Religiosas Doroteias. Apareceu-lhe, de novo, o Menino Jesus. Perguntou se já tinha espalhado a devoção a Sua SS. Mãe. A vidente expôs-Lhe as dificuldades apresentadas pelo seu confessor e que a Madre Superiora estava pronta a propagá-la, mas que o confessor tinha dito que ela, só, nada podia. Jesus respondeu:

 – É verdade que a tua Superiora, só nada pode; mas, com a Minha graça, pode tudo. 

Lúcia apresentou a Jesus a dificuldade que tinham algumas pessoas em se confessar ao sábado e pediu para ser válida a confissão de oito dias.

Jesus respondeu: 

– Sim, pode ser de muitos mais ainda, contanto que, quando Me receberem, estejam em graça e que tenham a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria.

Ela perguntou:

– Meu Jesus, as que se esquecerem de formar essa intenção?

Jesus respondeu:

– Podem formá-la na outra confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tiverem de se confessar.

13 de Junho de 1929 - Lúcia assim relata esta aparição: ‘Eu tinha pedido e obtido licença das minhas superioras e confessor para fazer a Hora-Santa das 11 à meia-noite, de quintas para sextas-feiras. Estando uma noite só, ajoelhei-me entre a balaustrada, no meio da capela, a rezar, prostrada, as Orações do Anjo. Sentindo-me cansada, ergui-me e continuei a rezá-las com os braços em cruz. A única luz era a da lâmpada. De repente iluminou-se toda a Capela com uma luz sobrenatural e sobre o Altar apareceu uma Cruz de luz que chegava até ao teto. Em uma luz mais clara via-se, na parte superior da cruz, uma face de homem com corpo até à cinta, sobre o peito uma pomba também de luz e, pregado na cruz, o corpo de outro homem. Um pouco abaixo da cinta, suspenso no ar, via-se um cálice e uma hóstia grande, sobre a qual caíam algumas gotas de sangue que corriam pelas faces do Crucificado e duma ferida do peito. Escorregando pela Hóstia, essas gotas caíam dentro do Cálice. Sob o braço direito da cruz estava Nossa Senhora (era Nossa Senhora de Fátima com o Seu Imaculado Coração na mão esquerda, sem espada nem rosas, mas com uma Coroa de espinhos e chamas). Sob o braço esquerdo, umas letras grandes, como se fossem de água cristalina que corresse para cima do Altar, formavam estas palavras: ‘Graça e Misericórdia’. Compreendi que me era mostrado o mistério da Santíssima Trindade e recebi luzes sobre este mistério que não me é permitido revelar.

Depois Nossa Senhora disse-me:

– É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os Bispos do Mundo, a Consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a justiça de Deus condena por pecados contra Mim cometidos que venho pedir reparação: sacrifica-te por esta intenção e ora. 

Dei conta disto ao confessor que me mandou escrever o que Nossa Senhora queria se fizesse. Mais tarde, por meio duma comunicação íntima, Nossa Senhora disse-me, queixando-se:

– Não quiseram atender ao Meu pedido!… Como o rei de França (1) arrepender-se-ão e fá-la-ão, mas será tarde. A Rússia terá já espalhado os seus erros pelo mundo, provocando guerras, perseguições à igreja: O Santo Padre terá muito que sofrer.

 

(1) - Em 1689, um ano antes de morrer, Santa Margarida Maria Alacoque tentou por vários meios fazer chegar ao Rei-Sol Luis XIV da França uma mensagem do Sagrado Coração de Jesus com quatro pedidos: gravar o Sagrado Coração de Jesus nas bandeiras reais; construir um templo em Sua honra, onde devia receber as homenagens da Corte; o Rei deveria fazer a sua consagração ao Sagrado Coração; e deveria empenhar a sua autoridade perante a Santa Sé para obter uma missa em honra do Sagrado Coração de Jesus. No entanto nada se conseguiu, parecendo mesmo que esta mensagem nunca terá chegado ao conhecimento do Rei. Só um século mais tarde, a família real responderia, na medida do possível, a esta mensagem. Em 1792, Luis XVI concebe a ideia do seu voto ao Coração de Jesus, mas já só o realiza na prisão do templo, prometendo cumprir, após a sua libertação, todos os pedidos comunicados por Santa Margarida Maria. Esta promessa já foi tarde, pois foi guilhotinado a 21 de Janeiro de 1793. 

 

 

 

Fontes:

site: www.derradeirasgracas.com e wikipédia

Bibliografia consultada: Fátima – Mundo de Esperança, Volume Comemorativo do Cinquentenário das Aparições de Fátima, Editora Verbo, 1967.


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Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019







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