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CONTRIBUIÇÃO: Trans-humanismo e pós-humanismo (Por Anselmo Borges)

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Parece claro que com as técnicas NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas) nos encontramos no limiar de uma realidade completamente nova.

Pergunta essencial: tudo o que é tecnicamente possível é moralmente bom? O que é que verdadeiramente queremos fazer?

Os problemas - filosóficos, éticos, políticos - estão aí, imensos, desafiadores, urgentes. E não se pode ficar indiferente, pois é a nossa própria humanidade enquanto tal que está em jogo. Béatrice Jousset-Couturier, em Le transhumanisme. Faut-il avoir peur de l’avenir, com prefácio de Luc Ferry, lembra o debate entre Jürgen Habermas e Peter Sloterdijk, declarando este: ‘A domesticação do ser humano constitui o grande impensado em relação ao qual o humanismo desviou os olhos desde a Antiguidade até aos nossos dias.’ E, contra a tese da descontinuidade metafísica entre ‘o que é’ e ‘o que é fabricado’, afirma uma continuidade, sendo neste contexto, pensando no pós-humanismo, que os coreanos do Sul elaboram uma carta ética dos robôs.

Caminhamos, sem problemas, para hibridações de várias espécies? Com o acesso das novas técnicas a uma elite ou minoria, não surge o risco ‘totalitário’ do controle dos indivíduos? Aí está uma das razões para que Jürgen Habermas defenda a proibição de intervir no genoma humano. Não se deve ser sensível às ameaças de eugenismo? O que é fato é que os chineses desenvolvem o China Brain Project, ‘programa de seleção totalmente eugênico destinado a criar uma população mais inteligente’. Nos Estados Unidos, é permitido selecionar o sexo da prole; porque não querer filhos também mais inteligentes? Caminharemos para filhos à la carte e para o fim da ética? Enquanto Habermas se opõe a toda a forma de ‘eugenismo liberal’, Sloterdijk tende a reduzir a história humana a uma sucessão de transformações nos modos de produção técnica. Mas que pensar da possibilidade de transformar o homem numa nova espécie? Para onde vão as nossas liberdades? E, com a criação de vírus sujeitos a transformações incontroláveis, a nossa segurança? B. Jousset-Couturier pergunta: quem dirigiria a ordem mundial? O homem, a máquina, um híbrido? Quem tem o primado: a ética ou as tecnologias? Viver-se-á mais tempo (excelente!), mas com que sentido? Já é possível a modificação mnésica, por exemplo, apagando lembranças, o que suscita a questão da falsificação da história e da identidade.

Por isso, a Comissão Consultiva Nacional de Ética (CCNE) francesa debruçou-se pela primeira vez sobre o ‘problema trans-humanista’ e concluiu (12.12.2013): É indispensável uma vigilância ética, pois ignoramos, a médio e a longo prazo, tanto ao nível individual como social, os efeitos do desenvolvimento das nanotecnologias’.

No contexto do desenvolvimento acelerado da inteligência artificial e no quadro de uma nova revolução industrial comandada por robôs, o Parlamento Europeu propõe legislação no sentido de precaver problemas causados por essa revolução em curso.

O que aí fica tem também na sua base a possibilidade de máquinas com emoção, inteligência, autoconsciência, no pressuposto de o homem ser automatizável no seu conjunto. Pergunta Jean Staune, em Les Clés du Futur: E se se pudesse conceber um dia uma máquina que dispusesse de todas as potencialidades de um ser humano, em termos de criatividade, de emotividade, mas também, e sobretudo, que seja consciente da sua própria existência e que, como todos os seres humanos, desejasse melhorar a sua situação? Esta possibilidade arranca do pressuposto de que é o cérebro que produz a consciência. Assim, mediante o estudo aprofundado dos mecanismos do cérebro, ‘chegaremos à compreensão do funcionamento da consciência e poderemos fabricar uma máquina susceptível de alcançar o mesmo nível de consciência e, portanto, de evolução que a espécie humana tem’. Mais: a partir daí, surgem consequências que nos deixam perplexos e atemorizados. De fato, se a máquina pode imitar o homem em todos os domínios, também pode construir e programar máquinas, que trabalharão vinte quatro horas sobre vinte e quatro horas e sete dias na semana, sem interrupção, para produzir uma versão melhorada de si mesmas, até produzirem uma superinteligência, algo que nos ultrapassará sempre e em todas as ordens de grandeza, chegando o momento de uma ‘singularidade’, isto é, tudo quanto existiu ao nível cultural até então ficará obsoleto. ‘A superinteligência será a última invenção da espécie humana e marcará o fim desta sobre a Terra. A existência de uma inteligência milhares de vezes superior à nossa só pode levar à nossa desclassificação e mesmo ao nosso desaparecimento.’

A espécie humana vai desaparecer na forma em que a conhecemos? Não há problema, pelo contrário, pois, segundo Raymond Kurzweil, que em 2005 escreveu uma obra famosa com o título The Singularity Is Near e que dirige uma universidade com esse nome, tornar-nos-emos nós próprios máquinas, em fusão com elas, para um novo estágio da evolução. Já não se trata de simples ‘trans-humanismo’, melhorando o homem, enxertando-lhe componentes eletrônicos: ‘O fim último é ser capaz de descarregar uma consciência humana num material informático. A humanidade acederá assim à imortalidade.’ (B. Jousset-Couturier informa que, quando interrogado em que é que se veria reencarnado, o Dalai Lama não exclui a possibilidade de ser num computador.)

Questões imensas que obrigam a pensar.

 

 

Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/trans-humanismo-e-pos-humanismo-2-5746029.html


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Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017





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